Sobre mocinhos e bandidos


Por Alyson Oliveira

Manifestações, presidente deposto, golpe, tropas armadas, discursos, dinheiro, gana por poder, acordo, desacordos. Assim pode-se iniciar uma conversa sobre a crise entre Rússia e Ucrânia. Ou seria Rússia e União Europeia? Não é possível afirmar, sem correr o risco de errar, quem é o “mocinho” e quem é o “bandido” da história. De um lado temos a Ucrânia e seus aliados, e do outro, a Rússia.

Questões desse tipo sempre terão como um dos principais causadores de discórdia os interesses econômicos. Ucrânia e Rússia tinham um bom relacionamento comercial, até a chance de adesão ao bloco da UE (União Europeia) que a primeira teve, deixando o então presidente, Viktor Yanukovich, sem muitas opções. Ao desistir de acordos comerciais com o Ocidente e preferir os russos, o presidente ucraniano assinou uma folha em branco, onde pode se ler semanas depois uma “carta de demissão” da presidência do país. A intenção era estreitar ainda mais as relações com a Rússia, de Vladimir Putin. Com essa ação, o presidente da Ucrânia sofreu o que Solange Reis, coordenadora do Observatório Político dos EUA, chamou de “golpe da ultradireita, influenciado diretamente pela UE e EUA”.

Após a decisão do presidente ucraniano, as ruas de Kiev foram tomadas por manifestantes que invadiram o palácio presidencial. Com a destituição já decidida pela Rada Suprema (parlamento), em fevereiro de 2014, a libertação da ex-primeira ministra e opositora, Yulia Tymoshenko, que cumpria pena por corrupção, também foi aprovada. Tudo aconteceu tão rápido, em caráter de urgência e sem nenhum debate prévio, que é impossível ser ingênuo e não pensar em um possível conluio. Isto posto, entremos, agora, na Criméia.

Os russos sempre consideraram a Criméia parte de seu território, algo que os ucranianos não admitem. O presidente russo, Vladimir Putin, reiterou isso por várias vezes em seu discurso após a decisão em referendo pela anexação da Criméia como território russo. “Colegas, no coração e na mente do povo, a Criméia sempre foi parte inseparável da Rússia. Essa firme convicção é baseada na verdade e na justiça e foi transmitida de geração em geração ao longo do tempo, sob todas as circunstâncias, apesar das muitas mudanças dramáticas pelas quais passou nosso país ao longo do século 20.”, disse Putin a membros do Conselho da Federação e aos deputados da Duma, em seu discurso. Alguns podem se perguntar o que uma coisa tem a ver com a outra, simples: mais da metade da população da Criméia para ser mais específico, é composta por russos, além dos ucranianos residentes lá (por volta de 350 mil) que consideram o russo como idioma nativo.

A Criméia era sim parte da Ucrânia mas, assim como num referendo em que a população optou pela reunificação à Rússia, em um outro, pediram a separação da Ucrânia. Até o dia 10 de março as tropas russas que foram enviadas à Crimeia pelo presidente tomaram as bases militares ucranianas sem qualquer tipo de violência. Ainda assim, em Kiev, o governo via isso como uma ofensiva russa. Assim,  governo dos Estados Unidos resolveu cortar a Rússia do G-8 e suspender o encontro que seria realizado em Sochi. Barack Obama ainda ameaçou Putin, dizendo que o preço a pagar por essas ações não seria nada baixo. Alguma dúvida de que o interesse econômico é o grande causador dessa discórdia toda?

Já ouvi pessoas dizendo que, com a inteligência tecnológica que Estados Unidos e União Europeia têm, a Rússia não teria tanta chance, já que sempre investiu mais em armamento do que em tecnologia. Difícil afirmar isso, até porque onde há armamento pesado, pressupõe-se que há inteligência suficiente para usá-lo em qualquer situação.

Além da “ofensiva”, a Ucrânia também acha inconstitucional o referendo realizado na Criméia, assim como também é considerado inconstitucional o referendo feito na Catalunha, para que ela se torne um Estado independente, mesmo que o plenário do Tribunal Constitucional da Espanha tenha aprovado o referendo e a declaração de soberania feita pelo Parlamento Catalão, no início de 2013.

Outra questão é o caso do referendo realizado, também no início do ano passado, para saber quem tem total domínio sobre as Ilhas Malvinas, Argentina ou Reino Unido. Desde 1833 nossos vizinhos, que foram chamados de “encrenqueiros”,  reivindicam o domínio sobre esse território, que fica a 400 quilômetros da costa argentina e a mais de 12 mil quilômetros de Londres. Por sinal, as Ilhas possuem mais descendentes de ingleses do que qualquer outra nacionalidade. Mas, como já dito, a Criméia também possui a maioria de russos habitando aquele território.

Colocado tudo isso em questão, fica uma dúvida: porque é que esses dois referendos, da Criméia e da Catalunha, são considerados inconstitucionais, e o das Ilhas Malvinas está corretíssimo?

Difícil afirmar quem são os “mocinhos” e quem são os “bandidos” dessa história toda.

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